Psicodélicos, promessas recicladas e a próxima crise: a Psiquiatria precisa de ciência, não de espetáculo
Por Prof. Rafael Oliveira.
Médico Psiquiatra (CRM-DF 22450 | RQE 18616)
Psicoterapeuta (RQE 23022) | Auditor Médico (RQE 23059)
A euforia recente com os psicodélicos – MDMA, psilocibina, LSD, ayahuasca – está sendo vendida como uma “nova revolução terapêutica”. Revistas com fotos de celebridades, “especialistas” descalços em ensaios fotográficos, slogans sobre “cura profunda” e, claro, a promessa: finalmente teremos a solução para a depressão, o trauma e o sofrimento humano.
Mas esse roteiro não é novo. Ele já foi ensaiado entre os anos 1960 e 1980, com ampla cobertura da mídia, incentivo financeiro de fundações privadas e centenas de estudos clínicos com LSD, mescalina e afins.
O discurso era o mesmo: liberação da mente, expansão da consciência, revolução na medicina.
E o que aconteceu?
Resultados fracos, descontrole no uso, abuso ideológico e um rastro de pacientes desorganizados, sem qualquer ganho duradouro. Por isso, essas substâncias foram banidas da medicina durante décadas. E agora, retornam com nova embalagem e velhos vícios.
A volta da pseudociência com roupa de laboratório
Hoje, as promessas se repetem, mas com um verniz técnico: “psicoterapia assistida por psicodélicos”, “protocolos supervisionados”, “modelos integrativos”. Só que, ao examinar os estudos, vemos:
Amostras pequenas e mal controladas;
Placebos mal aplicados;
Alta expectativa induzida pela própria equipe de pesquisa;
Falta de replicação independente;
E nenhum estudo randomizado com psilocibina para TEPT, apesar de isso ser repetido à exaustão em redes sociais.
O que estamos vendo, na verdade, não é ciência rigorosa — é marketing com jaleco.
O interesse por trás da “cura”
Por trás da linguagem humanista e das promessas terapêuticas, há interesses econômicos bilionários. Startups psicodélicas são financiadas por investidores do Vale do Silício.
A própria esquetamina, versão patenteada da cetamina, foi lançada com campanhas globais sofisticadas, e agora outras substâncias disputam o mesmo espaço.
O que está em jogo não é apenas o alívio do sofrimento, mas a criação de um novo mercado farmacêutico em larga escala.
Estamos falando de pílulas que prometem expansão da consciência, vendidas com aval de influenciadores e supostos especialistas, muitas vezes sem qualquer experiência real em saúde mental.
Se não formos críticos agora, estaremos abrindo caminho para mais uma crise de medicalização descontrolada — como foi com os opioides.
A próxima crise da psiquiatria?
A história é conhecida:
Nos anos 1990, médicos e empresas farmacêuticas garantiam que os novos analgésicos opioides eram seguros, não viciavam, e poderiam ser amplamente usados para tratar dor.
A consequência foi a maior epidemia de dependência química da história americana, com centenas de milhares de mortes.
Hoje, o discurso em torno dos psicodélicos segue o mesmo padrão:
“É seguro.”
“É revolucionário.”
“É diferente dessa vez.”
Mas a história nos mostra que quando a ciência cede à propaganda, quem paga a conta é o paciente.
Cetamina: o que realmente funciona
Enquanto tudo isso acontece, a psiquiatria dispõe de uma substância com eficácia real na depressão resistente: a cetamina.
Ao contrário do que se vê com MDMA e psilocibina, a cetamina tem dezenas de ensaios randomizados de qualidade, com efeitos rápidos em quadros refratários e redução comprovada da ideação suicida.
Mas veja a diferença: a cetamina funciona mesmo sem todo o espetáculo, sem precisar prometer iluminação espiritual ou criar terapias esotéricas ao redor. Ela funciona porque foi estudada com rigor — e porque pode ser aplicada com responsabilidade, dentro de protocolos médicos bem definidos.
Na PsiQs, ensinamos nossos alunos a usar a cetamina com consciência clínica, sem cair em modismos, e sempre integrada ao plano terapêutico completo.
Conclusão: pensar antes de prescrever, questionar antes de aderir
A medicina que seguimos na PsiQs é comprometida com o paciente, com a ética e com a realidade.
Não estamos aqui para seguir euforia de laboratório, nem slogans de startups. Estamos aqui para tratar sofrimento com seriedade.
Psicodélicos não são demônios nem milagres. Mas hoje, estão sendo promovidos com irresponsabilidade.
E se não aprendermos com o passado, seremos os responsáveis pela próxima tragédia.Porque nosso compromisso não é com tendências, é com a verdade do paciente.
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Dr. Rafael Oliveira
Sou médico psiquiatra (CRM-DF 22450 | RQE 18616 | RQE 23022), com formação em Medicina, Filosofia e Teologia. Atuo como psicoterapeuta, auditor médico e perito oficial do Poder Judiciário da União. Sou mestre em Medicina e hoje coordeno as pós-graduações da PsiQs — onde ensino e aprendo todos os dias com quem, como eu, acredita que clínica e pensamento caminham juntos.